SP pouparia R$ 38,5 milhões no semestre em internações hospitalares sem acidentes nas vias

27/09/2021

São Paulo, 24 de setembro de 2021 – Neste sábado (25) se comemora o Dia Nacional de Trânsito. No encerramento da Semana Nacional de Trânsito, o Detran.SP propõe uma reflexão. Como seria um mundo ideal - e ainda distante – com zero acidentes e, consequentemente, zero óbitos nas vias públicas? De que maneira isso impactaria em atendimentos em hospitais e cemitérios por conta de acidentes no trânsito?

Para começar, o Estado teria mais recursos para investir em moradias populares. Quer ver? Dados do DATASUS indicam que, até o primeiro semestre de 2021, R$ 38,5 milhões foram gastos com internações relacionadas a acidentes de trânsito no estado de São Paulo. Com esse montante daria para construir 385 apartamentos para famílias de baixa renda pelo CDHU.

A utopia de um trânsito cordial também desocuparia as salas de fisioterapia da Rede de Reabilitação Lucy Montoro, maior hospital para reabilitação de pessoas com deficiência física do Sistema Único de Saúde do estado de São Paulo. Dados de atendimentos relacionados a acidentes de trânsito na capital em 2020 foram de 7.233 atendimentos, envolvendo 483 pacientes.

Até agosto deste ano foram 8.053 acidentes e 515 pacientes. O número de sequelados é um pouco menor do que da média móvel de mortos pela Covid nesta quinta-feira, segundo o consórcio de veículos de imprensa. A maioria dessas vítimas é de homens, entre 15 a 39 anos, envolvidos em acidentes com moto. Aliás, o Estado amarga a triste marca diária de 5.2 mortos de motociclistas por dia. No município de São Paulo, o número é de 0.9 óbito por dia.

O impressionante é que o estado já teve uma redução significativa em relação aos últimos seis anos. Entre janeiro de 2015, quando o governo paulista lançou o Programa Respeito à Vida e lançou o sistema Infosiga, e agosto de 2021, houve uma diminuição de 1.383 mortes no trânsito paulista. O avanço equivale a salvar quase que a metade de inocentes que morreram no ataque terrorista do World Trade Center. No ranking das vidas que não foram perdidas durante esse período destaca-se a queda de óbitos entre os pedestres, que foi de 651.

A ausência de mortes no trânsito significa também uma rotina menos triste nos cemitérios. Ainda de acordo com o Infosiga, de janeiro a agosto deste ano, 3197 óbitos foram registrados no Estado de São Paulo. Ou seja, em 242 dias a média de óbitos no trânsito foi de 13,2 vítimas perdidas e famílias despedaçadas.

Para Ana Carolina Soares Bertho, pesquisadora na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além do comportamento das pessoas e das atitudes individuais, é preciso rever as opções de modais que transportam as pessoas: “nota-se que há mais acidentes envolvendo o individual do que o coletivo. Há menos ocorrências nas viagens diárias de transporte público do que em carros ou motos. Por terem uma velocidade mais limitada se tornam menos letais.”

A especialista em mobilidade e mortalidade também destacou a importância do conjunto de atitudes que levam para viagens mais seguras. “As mudanças implementadas no novo Código de Trânsito Brasileiro trouxeram um impacto importante nos óbitos e alterou os hábitos do condutor brasileiro”.

Bertho alertou que, além da capacitação dos motoristas, é necessário também uma formação ampla para o trânsito e inserir ciclistas e pedestres no circuito: “eles fazem parte da rede e também são impactados nos acidentes. Uma forma de aplicar essa conscientização é desde cedo, nas escolas”.

Com um trânsito mais fluente, sem acidentes nas vias urbanas, ganharia-se tempo e melhoraria a qualidade de vida. Hoje, os paulistanos gastam em média cerca de 127 minutos por dia no trânsito. Com carro ou no transporte coletivo. Se não houvesse acidentes, com certeza o tempo de deslocamento seria menor, o que permitiria que a pessoa pudesse ter mais tempo para curtir sua família e cuidar da sua higiene mental. Pesquisa realizada pela Faculdade de Saúde Pública da USP aponta que o tempo que desperdiçado no trânsito da cidade de São Paulo provoca problemas de saúde.

“Os acidentes de trânsito envolvem principalmente jovens e homens. Eles afetam a sociedade de forma econômica, social e familiar. Não há como mensurar os benefícios de um universo sem mortes nas vias. Provocaria um equilíbrio e um impacto significativo na população. E não é por acaso que a Organização das Nações Unidas, estabeleceu a Década da ONU a fim de reduzir em 50% óbitos em acidentes de trânsito”, finaliza Ana Carolina.


Oito ações

A ONG World Resources Institute Brasil trouxe oito pontos com o objetivo de reduzir as mortes no trânsito a partir da abordagem de sistemas seguros. São elas: construir cidades compactas e conectadas, desenhar ruas mais inteligentes, oferecer uma variedade de opções seguras de mobilidade, manter as velocidades em níveis seguros, reforçar leis existentes e regulações, educar melhor motoristas e planejadores urbanos, exigir padrões universais de segurança para veículos e acelerar a resposta a emergências.

Diversas medidas têm sido adotadas para reduzir a mortalidade relacionada nas rodovias do Estado de São Paulo. Entre elas, algumas de maior impacto podem ser destacadas.

A redução no tempo de atendimento às vítimas de acidentes pode reduzir a mortalidade em até 60%. Em rodovias, esse aspecto é ainda mais relevante, dado os tempos naturalmente dispendidos entre o deslocamento da equipe de resgate até o local do acidente e, em situações mais graves, dali para o hospital mais próximo. Os socorristas chamam esse período crítico de “A Hora de Ouro”, que é absolutamente relevante para as estatísticas de salvamentos de acidentes de trânsito.

Por último, estudos indicam forte redução de mortalidade em trechos urbanos de rodovias que foram iluminadas. Um estudo que reuniu resultados de 50 pesquisas referentes ao impacto sobre os acidentes da iluminação em vias previamente não iluminadas concluiu pela de redução de 60% em acidentes fatais nessas áreas.

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